Olhar Além – Parte 7

Ilustração: Sandra de Sena
Texto: Adriana Bueno de Oliveira

Finais do mês de agosto de 2021. A segunda consulta com a Dr. Marina foi
acompanhada de sua mãe, Dona Isanete.
Com todos os exames nas mãos, Sandra, a mãe e a médica tiveram uma
longa conversa, acompanhada de exames físicos, uma cuidadosa
verificação nos resultados dos exames levados e absoluta franqueza da
parte da médica e da paciente em relação a tudo o que se mostrava
desenhado. Realmente se tratava de Ataxia cerebelar, Parkinsionismo e
um possível surgimento de algo mais ainda, pois os sintomas que a Sandra
ia desenvolvendo, particularmente o cansaço extremo por movimentos
mínimos, levantavam suspeitas para algo mais que estava bem escondido.
As doses dadas de vitaminas não surtiram o efeito que a Dra. Marina e nós
esperávamos e a nossa esperança foi sufocada, de certa forma.
Não há como não relatar o momento em que mãe e filha ouvem o
diagnóstico vindo da médica, a qual soube ser a mais humana e
profissional possível. Quando a Sandra ouviu, pareceu-lhe ir ficando muito
longe aquela voz, como se algo a tirasse dali, silenciando tudo dentro dela,
mantendo-a em uma calma e atenção extrema. Logo em seguida,
retornando daquele torpor, olhou para sua mãe, que, presente ali,
emudeceu e não fez nenhum movimento. Sandra imediatamente retomou
seu pensamento em como aquela mãe estava se sentindo, ouvindo um
laudo médico daquela gravidade sobre uma de suas filhas. O temor e a
angústia maior foi por sua mãe, não por ela, pois ela sabia o que estava se
passando dentro dela, mas e dentro de sua mãe, como viria a reação? E de
seu pai e de todos nós, os familiares… como cada um reagiria e iria com
ela enfrentar o que estaria vindo pela frente?
Antes de terminar a consulta, mais exames foram pedidos e agora veio
uma medicação, a qual seria começada a tomar com dosagens pequenas,
sendo aumentada gradativamente, conforme a aceitação e reação do
organismo.
Da rodoviária de Curitiba eu fiquei sabendo do laudo médico e de tudo o
mais. Minha primeira reação foi respirar fundo e pensar em algo que

pudesse amenizar aquele choque, o cansaço da viagem e o ânimo da
Sandra. Comprei então coisas que ela gosta de comer e uma coleção de
HQs da Disney, junto com um pequeno cartão contendo uma frase de
acolhida.
Acolhida. Essa era a palavra que mais tínhamos que trabalhar daqui para
frente em nossas vidas. Cada situação que viria, mesmo sem sabermos
como seria, teria que ser acolhida e não negada ou não aceita. E tornar
isso leve, como a Sandra sempre fala, seria o desafio para todos, não só
para nós que estávamos direto ali com ela, mas para amigos, parentes e
conhecidos que iriam aparecer para visitá-la.
Acolher processos dentro de cada um, pois eles começaram a vir com
peso, aliás, já estavam trabalhando dentro de nós sem que
percebêssemos que eles faziam parte dessa caminhada e que eram
bagagens necessárias para cada um.
Depois disso, cada dia seria vivido como deveria ser, como íamos
recebendo e aprendendo. Mas acima de tudo, confiando que não
estávamos sozinhos e a mão de Deus nos conduzia.

(Continua no próximo texto)

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