
Ilustração: Sandra de Sena
Olhar além – Parte 4
Texto: Adriana Bueno de Oliveira
Entretanto, 2020 trouxe uma pandemia e veio com planos de alterar o equilíbrio de todos por aqui.
Em março de 2020, mais precisamente no dia 17, Canoinhas suspendeu as aulas presenciais e as ruas foram esvaziadas. Pouca circulação havia. Todos foram obedientes a famosa expressão que a pandemia do Coronavírus trouxe: “Fique em casa!”
Não havia nenhum caso confirmado por aqui, mas o medo veio antes do vírus. Vieram as máscaras e o uso do álcool em gel, sendo uso obrigatório em todos os locais. Isolamento e tensão foram se instalando aos poucos.
De natureza responsável, Sandra seguiu trabalhando, tinha que pensar em seus pais, e agora mais do que nunca, pois o sr. Sena não podia sair com tanta frequência nas ruas vender os doces que ele e dona Nete faziam para ajudar nas despesas da casa.
Os dias, assim, se tornavam mais exigentes, pois o medo de trazer o vírus para dentro de sua casa era algo presente, o que foi gerando em todos um estado mental e emocional pesado.
A terapia com a música foi ajudando, tanto na motricidade quanto para arejar a mente. Seu andar, entretanto, foi ficando mais debilitado e ela precisava agora de um braço ou um ombro para se apoiar. Estar no meio da multidão era como sentir claustrofobia, e lugares como supermercados e ruas foram ficando perigosos.
Na empresa em que Sandra trabalhava, os colegas de trabalho foram notando que ela estava com a marcha mais comprometida, tanto que iam adaptando o ambiente em que ela trabalhava da maneira mais fácil para ela se locomover lá dentro.
Interessante estar em uma situação assim. Quando não se passa por algo semelhante não conseguimos nos colocar totalmente no lugar de quem precisa de um apoio para se locomover e circular no meio da multidão ou em lugares de uso frequente. É como quase se tornar “invisível” diante dos olhos e do andar apressado das pessoas, as quais muitas vezes mostravam uma certa irritação por ter que diminuir o passo ou dar vez para passarmos.
E o ano foi passando e a Sandra e eu fomos criando o livro da história da Betânia. Assim que eu terminei de escrever, Sandra começou os “rabiscos”, como ela gosta de chamar, e uma personagem encantadora foi nascendo, assim como outros que faziam parte da história da vida da nossa querida Betânia. Sandra desenhou e coloriu de forma muito harmoniosa, e no quase final de dezembro de 2020 estávamos com o livro nas mãos, pronto para entregarmos como presente no dia 27 de dezembro, data do aniversário da Betânia.
Conseguimos fazer a entrega mantendo todos os protocolos de segurança que a pandemia nos pedia. Sandra fez um esforço grande para ir, pois era durante a semana, e além de cansada do trabalho também já sentia um cansaço a mais devido ao seu quadro e a marcha que cada vez mais ficava lenta.
(continua no próximo texto)
