Autora: Adriana Bueno de Oliveira

Arte: Sandra de Sena
O retorno à Canoinhas, após a consulta com o oftalmologista e a orientação do mesmo, referente a procura (com uma certa urgência) de um neurologista, nos deixaram atentos quanto as alterações no equilíbrio que percebíamos na Sandra.
No final de suas férias, em uma visita a ACD (Associação Catarinense dos Deficientes), estive lá com a Sandra. O fim de janeiro era o período que tirávamos para irmos lá conversarmos e colocarmos em ordem uma documentação ou outra. Como a Sandra é monocular, a ACD faz este importante papel na vida dela (e de muitos outros) de irem acompanhando a família, a parte burocrática que vez ou outra passa por alterações em seus processos de registros. Além também, de proporcionar oficinas de artesanato, cozinha, rodas de conversas entre os associados, esporte, dança, assistência psicológica e muito amor e carinho envolvido.
Foi nesta ocasião que nós conversamos sobre uma menina muito querida de lá, chamada Maria Betânia. A conversa foi tão especial que algo foi sugerido interiormente: que tal mais pessoas conhecerem a vida da Betânia? Assim foi lançada a semente em nossos corações do livro que a Sandra e eu faríamos juntas, futuramente, sobre a vida da Betânia, onde a Sandra ilustraria e eu escreveria.
Em um certo dia, pouco antes de terminar suas férias e com sua mãe, dona Nete, Sandra saiu fazer algumas coisas no centro da cidade, e passando por uma loja de instrumentos musicais, avistou de longe um cavaquinho. Convidou a mãe para entrarem na loja e, seguindo sua intuição, comprou o instrumento, o qual seria seu companheiro de fisioterapia. Isso mesmo! Sandra já estava sentindo formigamentos e dormências em sua mão esquerda e queria colocar ela para exercitar de alguma forma. Como sempre gostou de ouvir música e tocar violão, agora seria a vez de tentar aprender a “solar” em um novo instrumento de cordas. Na mente da Sandra, aprender os “solos” no cavaquinho, faria com que todos os dedos da mão esquerda se movimentassem, assim como também os seus tendões.
Quanto as ilustrações, Sandra nunca deixou de lado e neste período do desenvolvimento da doença, ilustrar tornou-se o seu refúgio, o seu silenciar mental e a sua paz interior, onde ela sempre encontra o seu ponto de equilíbrio. Foi nestes momentos que Sandra teve a ideia de expressar em desenhos o olho humano, mas com o intuito de mostrar um olhar além sobre o que ela está passando, não este olhar daqui. Era a oportunidade que tinha de expor a sua forma de ver e viver. Ao mesmo tempo foi despertado em mim a vontade de escrever o que todos nós estávamos vivendo e aprendendo com a situação, descobrindo um caminho novo a percorrer, sendo convidados a olharmos além, junto com a Sandra, para uma situação humanamente delicada, mas em grau de aprendizagem, nos chamava a sermos equilibrados.
(continua no próximo texto)

Maravilhoso